Cultura

26 de março de 2017

A ilha fantasma em Hong Kong

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A vibrante e congestionada Hong Kong não seria o primeiro lugar que você esperaria encontrar uma ilha fantasma, não é mesmo? Mas em uma parte afastada e silenciosa no distrito de Sai Kung, aproximadamente a 25km a nordeste do Centro, uma ilha minúscula oferece um olhar raro no passado.

Carinhosamente apelidada de “Ilha Fantasma”, Yim Tin Tsai é exuberante e verde – e salpicada com casas decadentes que envelhecem lentamente.

A ilha já foi o lar de uma próspera comunidade Hakka, um clã que migrou do norte da China há séculos. Eles se estabeleceram na ilha e confeccionavam panelas de sal para ganhar a vida. Na verdade, Yim Tin Tsai significa “Pequena Panela de Sal” em cantonês. Quando as panelas de sal deixaram de ser fabricadas há mais de 100 anos atrás, devido à crescente competição com Vietnã e China, a maioria dos moradores voltou-se para a agricultura, pesca e pecuária.

Ilha fantasma hong kong

Em seu auge na década de 1940, entre 500 e 1200 pessoas estavam vivendo na ilha. Mas na década de 1960, mais e mais famílias deixaram de ter acesso à educação além da escola primária da aldeia, muitas mudando-se então para Kowloon ou para o Reino Unido.

O último dos aldeões em Yim Tin Tsai emigrou pela década de 1990, e, nos anos seguintes, Yim Tin Tsai estava vazio, com casas inteiras deixadas para o tempo se encarregar de apaga-las.

Mas, para um punhado de aldeões, a ilha representou algo especial – um lado único da história de Hong Kong e da cultura que não deve ser esquecido.

Novos começos

Se os viajantes visitaram Yim Tin Tsai uma década atrás, eles teriam encontrado nada além de ervas daninhas, casas em ruínas e campos tomados por mato. É exatamente o que o representante da aldeia Colin Chan viu quando voltou para a ilha depois de 40 anos.

“Voltei aqui procurando recuperar alguma coisa que sentia ter perdido”, disse Colin. “Eu encontrei a ilha em decadência e eu fiquei muito chateado. Esse é o lugar onde eu cresci. Esse é o lar do meu pai e o lar do pai dele.

Ilha fantasma hong kong

Os antepassados de Colin colonizaram a ilha há mais de 300 anos. Morador da oitava geração, viveu em Yim Tin Tsai até os sete anos, mudou-se para Sai Kung e depois para o Reino Unido para continuar sua educação.

“Quando criança, eu me lembro de correr por toda a montanha”, disse ele. “Sinto falta daquela sensação de aldeia. Não consigo encontrar isso em outros lugares em Hong Kong – mas ainda existe aqui. ”

Em 1999, Colin foi eleito representante da aldeia e começou o que viria a ser uma missão ao longo da vida: ressuscitar a ilha. Durante os primeiros anos, ele se concentrou na construção de uma rede de aldeões de todo o mundo, na esperança de criar uma comunidade de descendentes e voluntários que ajudaria a reconstruir Yim Tin Tsai de forma sustentável.

Ilha fantasma hong kong

A verdadeira dinâmica começou em 2003, quando a Igreja Católica canonizou Josef Freinademetz, um missionário influente que viveu entre os aldeões por um período no século XIX. Depois que a notícia quebrou, católicos de todo o mundo destinaram a pequena ilha para peregrinações, e Colin queria garantir que eles chegaram com uma calorosa recepção.

Reconstruindo o passado

Juntamente com um comitê de cerca de 10 antigos aldeões, Colin levantou dinheiro para construir um centro de visitantes para viajantes. Em 2004, uma fundação de caridade doou fundos através da Igreja Católica para renovar a capela histórica da ilha. Originalmente construído em 1890 por missionários católicos, é um dos mais antigos de seu tipo em Hong Kong.

Simples e elegante, a capela inteiramente branca apresenta vitrais radiantes e um salão de oração acolhedor. Algumas fileiras de bancos de madeira posicionados frente a um altar minimalista, composto por vermelho e dourado. Em 2005, a capela foi honrada com o Prêmio Unesco de Conservação de Patrimônio Cultural Ásia-Pacífico.

Motivados pelo reconhecimento, os aldeões organizaram um horário regular de balsa para permitir que os viajantes chegassem à ilha, e começaram a mostrar a história única da vila. Eles construíram uma trilha histórica, renovaram casas de ancestrais Hakka, criaram um museu de cerâmica e até uma fazenda orgânica que fica ao pé da igreja.

“Quero fazer da ilha um museu vivo”, disse Colin. “Há dez anos, as pessoas não estavam realmente pensando em patrimônio e preservação. Eles queriam ganhar dinheiro e construir prédios altos. Mas agora as pessoas estão tomando conhecimento”.

Sal da terra

Depois de uma série de reformas bem-sucedidas, a comissão voltou seu foco para as antigas salinas da ilha. O que era apenas um campo empoeirado uma década atrás agora é um campo de sal em funcionamento e que ainda conta com um centro educacional, que explica ao visitante cada etapa do processo de produção do sal.

Em 2015, os campos de sal ressuscitados ganharam uma distinção da Unesco por conservar essa herança industrial de Hong Kong, estimada em mais de 2.000 anos.

Ilha fantasma hong kong

Hoje as salinas brilham à luz do sol, cercadas por graciosas árvores de mangue. Eles não produzem sal suficiente para ser comercialmente viável, mas como as únicas salinas funcionando em Hong Kong, eles agem como um nostálgico link com o passado.

“Recriar os campos de sal me deixa muito feliz porque me aproxima dos meus antepassados”, disse Rosa Chan, guia da ilha e da oitava geração de aldeões. “É muito gratificante poder fazer a mesma coisa que nossas famílias fizeram séculos atrás”.

Rosa viveu na ilha até que ela tinha 13 anos e depois mudou-se para Kowloon City para continuar seus estudos. Mais tarde ela se mudou para o Reino Unido com sua família até que ela se aposentou.

Ilha fantasma hong kong

“Quando voltei para Hong Kong, senti que era minha responsabilidade ajudar”, disse ela. “Quando eu voltei, tudo estava quebrado e velho. O mato havia tomado conta de tudo.

Hoje em dia ela visita a ilha duas vezes por semana para cuidar dos jardins e dar passeios. Há muitos turistas para dar boas-vindas. A ilha possui menos de 1km² e viu quase 34.000 visitantes em 2016, a maioria dos quais veio para aprender sobre as salinas, explorar a trilha histórica, caminhar ao redor da ilha ou simplesmente encontrar um lugar calmo para meditar.

Caminhando pela aldeia, os visitantes sentem como a comunidade da ilha um dia foi, graças as casas com telhados de ardósia tradicionais Hakka e suas fachadas de azulejos já deterioradas pelo tempo. E mesmo que muitas das casas de aldeia ainda estejam degradadas e desoladas, Rosa faz questão de mostrar as casas esquecidas e em ruínas espalhadas pela ilha, pois segundo ela, isso faz parte da história de seus antepassados.

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